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Vitamina D na Infância e Adolescência: a era da suplementação universal chegou (Atualizações da SBP)

O Documento Científico SBP nº 181 recomenda suplementação universal de vitamina D para todas as crianças e adolescentes saudáveis: 400 UI/dia até 1 ano e 600 UI/dia dos 1 aos 18 anos.

Banner escrito "Suplementação de Vitamina D Atualizações 2026", junto ao avatar da MEDsimple, LuzIA, segurando um frasco de comprimidos de Vitamina D.

Existe uma contradição curiosa na pediatria brasileira: vivemos num país banhado de sol praticamente o ano inteiro — e ainda assim a hipovitaminose D entre crianças e adolescentes é um problema real, frequente e subestimado. Estima-se que perto de um bilhão de pessoas, em todo o mundo, apresentem níveis inadequados dessa vitamina, incluindo uma parcela significativa da população brasileira.

Parte do problema está na própria fisiologia. A vitamina D — rigorosamente falando, um pró-hormônio e não uma vitamina convencional — depende de uma cadeia de conversões que começa na pele, passa pelo fígado e termina nos rins antes de atingir sua forma ativa. Cada elo dessa cadeia pode ser interrompido por protetor solar adequado, roupas cobrindo o corpo, poluição atmosférica e tempo nublado, pigmentação escura da pele, tempo em ambientes fechados, altas latitudes — fatores que descrevem razoavelmente bem o cotidiano de muitas crianças brasileiras.

Outra parte do problema está na dieta. Os alimentos genuinamente ricos em vitamina D — salmão selvagem, óleo de fígado de bacalhau — raramente fazem parte da alimentação rotineira de famílias brasileiras. E o leite materno, apesar de ser o melhor alimento para o lactente em todos os outros sentidos, oferece quantidades modestas da vitamina. Sem intervenção, o lactente em aleitamento exclusivo simplesmente não consegue suprir sua necessidade.

Foi nesse contexto que o Departamento Científico de Endocrinologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) publicou, em novembro de 2024, o Documento Científico nº 181 — uma atualização das diretrizes anteriores que traz uma mudança de postura significativa: a suplementação de vitamina D deixa de ser uma recomendação seletiva e passa a ser universal para toda a faixa pediátrica. Este artigo explica o que motivou essa mudança, o que ela significa na prática e por que o debate ainda não está completamente encerrado.

O passado seletivo: por que só suplementar grupos de risco não bastava

Até 2024, a lógica vigente era identificar quem realmente precisava e suplementar com precisão. O documento da SBP de 2016 — que este novo vem substituir — já recomendava vitamina D para lactentes em aleitamento materno exclusivo, prematuros, crianças com dietas estritamente vegetarianas, portadores de doenças que comprometessem a absorção intestinal, e outros grupos vulneráveis.

Na prática, alguns grupos de risco ficavam para trás. A obesidade — que sequestra a vitamina D no tecido adiposo — muitas vezes passava despercebida como fator de risco para hipovitaminose. O uso de anticonvulsivantes, corticoides e antifúngicos, que aceleram a degradação da vitamina, nem sempre era associado à necessidade de reposição. E o adolescente, um dos grupos mais vulneráveis justamente pelo crescimento esquelético acelerado, por ser o paciente que menos comparece ao consultório pediátrico também costumava ficar de fora da prevenção. Inclusive, um estudo publicado no Jornal de Pediatria em 2024 detectou prevalência elevada de deficiência em adolescentes de uma grande amostra brasileira — incluindo aqueles sem fatores de risco aparentes. 

A virada de 2025: o que muda na recomendação

A mudança central é de filosofia, não apenas de dose. A pergunta deixa de ser "esse paciente está em grupo de risco?" e passa a ser "toda criança precisa — como eu garanto que essa está recebendo?" É uma virada similar à que aconteceu décadas atrás com o ácido fólico na gestação: parou-se de tentar identificar gestantes de risco para deficiência e passou-se a recomendar para todas, porque os custos da universalização são baixos e os benefícios da prevenção são altos.

🔑  A VIRADA DE 2025

Suplementação de vitamina D passa a ser recomendada para todas as crianças e adolescentes saudáveis — sem triagem prévia, sem lista de critérios, sem esperar aparecerem sintomas.

▸  Do nascimento ao primeiro aniversário: 400 UI/dia

▸  Do primeiro aniversário aos 18 anos: 600 UI/dia

Formulação de escolha: colecalciferol (vitamina D3), via oral, uso diário.

Importante frisar: essas doses valem para crianças e adolescentes saudáveis, sem fatores de risco específicos. Pacientes com condições que comprometam a absorção ou o metabolismo da vitamina D merecem doses maiores, na faixa de 1.200 a 1.800 UI/dia, com ajuste individual e acompanhamento especializado.

E a exposição solar?

O documento mantém uma posição firme e clinicamente responsável: não se recomenda exposição solar sem proteção como estratégia preventiva para vitamina D. A SBP e a Sociedade Brasileira de Dermatologia são alinhadas nesse ponto. Não existe quantidade de sol que seja ao mesmo tempo suficiente para produzir vitamina D e segura em relação ao fotoenvelhecimento e ao risco de câncer de pele. A solução, portanto, é a suplementação — e não abrir mão do protetor solar.

Na prática do consultório: o que muda 

Do ponto de vista operacional, essa mudança simplifica a consulta pediátrica. O roteiro agora é direto:

  • Toda criança saudável recebe suplementação de vitamina D, independentemente de avaliação de risco.
  • Nenhum exame laboratorial é necessário antes de iniciar — nem para confirmar deficiência, nem para monitorar quem recebe doses de prevenção. O benefício do exame não justifica o custo e a logística. A dosagem laboratorial segue indicada apenas nos grupos de risco e em situações específicas.

O que ainda divide opiniões

O caos dos pontos de corte

Não existe hoje um consenso sobre o que é "suficiência" de vitamina D. A AAP, a Endocrine Society e o Global Consensus usam valores diferentes. A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, por sua vez, recomenda níveis entre 30 e 60 ng/mL para grupos de risco — um valor mais alto do que o que outras sociedades consideram suficiente para a população geral. Isso cria situações paradoxais: um mesmo exame pode ser interpretado como "normal" por um médico e como "insuficiente" por outro, dependendo da referência usada.

Suplementação universal sem triagem: e os casos que precisam de mais?

Há uma ironia na universalização: ao tratar todos os pacientes como equivalentes, corre-se o risco de subestimar aqueles que precisam de doses maiores. O prematuro, a criança com doença celíaca não controlada, o adolescente obeso — todos eles recebem a mesma recomendação de 400 ou 600 UI/dia, quando na verdade podem precisar de três vezes essa dose. A universalização resolve o problema da média, mas não substitui a avaliação individualizada para quem está fora da curva.

Conclusão

A recomendação de suplementação universal encerra, na prática, uma discussão que durava anos no atendimento pediátrico: suplementar ou não. A resposta da SBP é objetiva — toda criança saudável, desde o nascimento até os 18 anos, deve receber a suplementação com doses ajustadas por faixa etária. O campo ainda tem questões abertas, mas, para a decisão clínica do dia a dia, o documento oferece clareza suficiente. Cabe ao médico incorporá-la à rotina.

Para leitura do documento-fonte na íntegra, visite https://www.sbp.com.br/fileadmin/11/DC_HipovitD_diagn-tratam-prevenc_Atualiz.pdf

Referências

1. Hipovitaminose D em pediatria: diagnóstico, tratamento e prevenção – Atualização. Documento Científico SBP nº 181. Departamento Científico de Endocrinologia, Sociedade Brasileira de Pediatria. Novembro de 2024.

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