
Em 2026, a American Gastroenterological Association (AGA) publicou o Roma V, o novo padrão diagnóstico para os distúrbios de interação entre o sistema nervoso central e o trato gastrointestinal. O documento foi desenvolvido por mais de 140 especialistas e representa a revisão mais abrangente dos critérios de Roma desde 2016. Seu principal movimento conceitual não está nos critérios em si, mas na reformulação do que significa 'funcional' em gastroenterologia: o Roma V abandona esse rótulo e adota a denominação Distúrbios de Interação Cérebro-Intestino (DGBIs). A mudança reflete uma década de evidências acumuladas sobre os mecanismos fisiopatológicos que sustentam essas condições.
Este artigo cobre os principais pontos do Roma V com foco nos distúrbios gastrointestinais pediátricos superiores, incluindo os distúrbios esofágicos, os transtornos funcionais de alimentação, a síndrome de ruminação, a síndrome do vômito cíclico, a síndrome da náusea crônica e a dispepsia funcional.
Trajetória dos critérios de Roma: de Roma I ao Roma V
Os critérios de Roma surgiram nos anos 1980 como uma tentativa de sistematizar o diagnóstico de condições gastrointestinais nas quais os exames convencionais não revelavam lesão estrutural, mas os pacientes apresentavam sintomas significativos. A proposta era criar critérios baseados em sintomas, suficientemente padronizados para a pesquisa clínica e aplicáveis na prática assistencial.
Roma I e Roma II estabeleceram as bases taxonômicas. O Roma III (2006) popularizou o conceito de distúrbios funcionais gastrointestinais e ampliou o número de entidades reconhecidas. O Roma IV (2016) buscou maior especificidade diagnóstica e, para isso, elevou os limiares de frequência em alguns critérios, como na Síndrome do Intestino Irritável (SII). O efeito prático foi uma redução na prevalência reportada da SII, não porque houvesse menos pacientes, mas porque os critérios se tornaram restritivos demais.
O Roma V é uma correção de rota baseada em evidências acumuladas em dez anos, no avanço das tecnologias diagnósticas e na revisão crítica do que o termo 'funcional' realmente captura sobre a fisiopatologia dessas condições.
De 'funcional' para DGBI: o que muda na premissa diagnóstica
A substituição do termo 'distúrbios funcionais gastrointestinais' por Distúrbios de Interação Cérebro-Intestino (DGBIs) é a mudança mais estrutural do Roma V. O rótulo 'funcional' carregava uma conotação clínica problemática: na ausência de lesão visível, tendia a ser interpretado como ausência de patologia real. O novo termo posiciona essas condições como entidades com mecanismos fisiopatológicos próprios e identificáveis, que incluem hipersensibilidade visceral, disfunção da motilidade, modulação central da percepção de dor, alterações do eixo autonômico e microinflamação de baixo grau.
Embora a microbiota intestinal ainda não faça parte dos critérios diagnósticos formais do Roma V, o documento adota um modelo fisiopatológico muito mais amplo para os DGBIs do que as versões anteriores. Ao enfatizar mecanismos como ativação imune de baixo grau, alterações neuroimunes, hipersensibilidade visceral e comunicação bidirecional entre cérebro e trato gastrointestinal, o Roma V aproxima-se das hipóteses atuais envolvendo interação microbiota-intestino-cérebro. A presença de eosinófilos, mastócitos e alterações inflamatórias microscópicas em alguns DGBIs reforça a ideia de que esses distúrbios envolvem alterações biológicas mensuráveis, mesmo na ausência de lesões estruturais clássicas visíveis à endoscopia convencional.
O ponto central aqui é que os DGBIs deixam de ser diagnósticos de exclusão e passam a ser diagnósticos positivos, sustentados por critérios clínicos e, crescentemente, por testes fisiológicos.
A adoção de um modelo de diagnóstico positivo para os DGBIs não elimina a necessidade de investigação orgânica quando sinais de alerta estão presentes. O Roma V reforça que sintomas como perda ponderal, anemia, vômitos biliosos, dor intensa, alterações laboratoriais relevantes, sintomas noturnos ou ausência de resposta terapêutica devem modificar o raciocínio clínico e direcionar exames complementares. Em pediatria, essa preocupação aparece de forma particularmente importante nos transtornos alimentares funcionais, nos quais condições como esofagite eosinofílica podem simular apresentações inicialmente compatíveis com DGBIs. A proposta do Roma V não é reduzir a investigação diagnóstica, mas torná-la mais orientada por fenótipos clínicos e fatores de risco.
Conceito central Os DGBIs são distúrbios com fisiopatologia própria, mediada pelo eixo bidirecional entre o sistema nervoso central e o trato gastrointestinal. Exame normal não é sinônimo de ausência de doença. |
Distúrbios esofágicos: fenotipagem fisiológica como padrão diagnóstico
O Roma V expande significativamente o reconhecimento dos DGBIs esofágicos e eleva o papel dos testes fisiológicos no processo diagnóstico. A pH-impedanciometria e a manometria esofágica de alta resolução (HRIM) passam a integrar formalmente os algoritmos diagnósticos de vários distúrbios esofágicos, especialmente na diferenciação entre fenótipos que o Roma IV agrupava de forma menos precisa. Nesse artigo, não iremos destrinchar os algoritmos diagnósticos, mas você pode lê-los em https://www.gastrojournal.org/.
1. Hipersensibilidade ao refluxo
A hipersensibilidade ao refluxo descreve pacientes com sintomas tipicamente associados ao refluxo gastroesofágico, mas com exposição ácida dentro dos parâmetros normais na pH-impedanciometria. O diagnóstico exige a demonstração de correlação temporal entre os sintomas e eventos de refluxo (ácidos ou não ácidos), mesmo na ausência de exposição ácida patológica. Isso diferencia esses pacientes tanto da DRGE convencional quanto da pirose funcional.
Do ponto de vista terapêutico, ensaios empíricos com inibidores de bomba de prótons (IBPs) são aceitos como passo inicial por até oito semanas, mas os dados pediátricos mostram que entre 0% e 67% dos pacientes com hipersensibilidade ao refluxo obtiveram alguma melhora com IBPs. Isso significa que a ausência de resposta não exclui o diagnóstico e que a fenotipagem fisiológica permanece necessária diante de sintomas refratários.
2. Distúrbio esofágico de dor sem correlação com refluxo (RNEPD)
O RNEPD (do inglês Reflux-Negative Esophageal Pain Disorder) corresponde ao que o Roma IV denominava pirose funcional. O diagnóstico requer exposição ácida normal e ausência de correlação temporal entre sintomas e eventos de refluxo na pH-impedanciometria. A fisiopatologia envolve hipersensibilidade visceral sem participação significativa do ácido, o que tem implicação terapêutica direta: IBPs são ineficazes como tratamento definitivo, e o manejo passa por neuromoduladores e terapia cognitivo-comportamental.
Implicação prática Pacientes com RNEPD que não respondem a IBP não devem ter a dose escalonada indefinidamente. O Roma V recomenda que, diante de falha terapêutica, o caminho seja o diagnóstico fisiológico (endoscopia + pH-impedanciometria), não o aumento do bloqueio ácido. |
3. Síndrome de eructação supragástrica
A síndrome de eructação supragástrica é formalmente incorporada ao Roma V como distúrbio esofágico dos DGBIs. Diferentemente dos arrotos convencionais (originados no estômago), a eructação supragástrica envolve a ingestão de ar para o esôfago seguida de sua expulsão imediata, antes que ele chegue ao estômago. É um comportamento involuntário, mas condicionado, que pode se manifestar como dezenas de episódios por hora.
O diagnóstico é predominantemente clínico: episódios repetitivos de arrotos, tipicamente fora das refeições e ausentes durante o sono, são quase patognomônicos. A pH-impedanciometria ou a HRIM podem confirmar a origem esofágica do ar, embora a ausência de eventos durante o exame não exclua o diagnóstico. O tratamento de escolha é comportamental, com fonoterapia e técnicas de respiração diafragmática demonstrando resultados consistentes em estudo randomizado conduzido em adultos.
Transtornos funcionais de alimentação pediátricos: uma nova classificação
Uma das contribuições mais expressivas do Roma V está na reorganização dos transtornos funcionais de alimentação pediátricos (FPFDs, do inglês Functional Pediatric Feeding Disorders). O documento propõe substituir o termo ARFID (Avoidant/Restrictive Food Intake Disorder), adotado pelo DSM-5, por subcategorias mais específicas. O argumento clínico é que o ARFID agrupa sob um mesmo rótulo comportamentos com fisiopatologia e abordagens terapêuticas distintas, o que dificulta o direcionamento adequado do tratamento.
O Roma V propõe quatro subcategorias dentro dos FPFDs:
Subcategoria | Característica central |
Disfagia hipersensível | Sensação de alimento parado, com anatomia e motilidade esofágica normais. Equivalente pediátrico da disfagia funcional do adulto. |
Alimentação restritiva antecipatória | Restrição alimentar motivada pelo medo de consequências aversivas (dor, náusea, vômito). O componente ansioso é o principal motor do comportamento. |
Desregulação da fome | Alteração do sinal de saciedade ou fome: pode se manifestar como ausência de apetite ou como ingestão compulsiva sem controle da saciedade. |
Transtorno funcional de alimentação de origem médica | Disfunção alimentar que persiste após a resolução adequada da doença de base, manifestada como regressão ou estagnação das habilidades de alimentação. |
A subcategoria de alimentação restritiva antecipatória merece atenção especial pelo frequente subdiagnóstico. Crianças com DGBIs recorrentes podem desenvolver, ao longo do tempo, um condicionamento aversivo em relação à alimentação: aprenderam por experiência repetida que comer precede sintomas. O resultado é uma restrição alimentar progressiva que não se explica por nenhuma doença ativa, mas por um padrão de hipervigilância aprendido. Mais de 80% dessas crianças apresentam DGBIs subjacentes ativos, o que exige que o tratamento da condição gastrointestinal de base seja parte integral do manejo.
Atenção diagnóstica O Roma V recomenda endoscopia digestiva alta em praticamente todos os casos de FPFD, pelo risco de esofagite eosinofílica (EoE) como diagnóstico simulador. Estudos mostram que entre 15% e 25% de crianças com sintomas compatíveis com disfagia funcional apresentam EoE na biópsia esofágica. |
Síndrome da náusea crônica: formalização de uma entidade subdiagnosticada
O Roma V formaliza a síndrome da náusea crônica (CNS) como uma entidade própria, com critérios definidos e fisiopatologia reconhecida. O diagnóstico requer náusea como sintoma predominante, com ocorrência de pelo menos duas vezes por semana, sem associação a vômito. Esse último critério diferencia a CNS de outras condições como a síndrome do vômito cíclico.
A fisiopatologia envolve interações entre o sistema nervoso autônomo, o eixo cérebro-intestino e comorbidades psicológicas, especialmente ansiedade e depressão. Um dado clinicamente relevante é a alta prevalência de disfunção autonômica nesses pacientes, incluindo a síndrome de taquicardia ortostática postural (POTS). Em crianças com náusea crônica refratária ao tratamento gastrointestinal isolado, a investigação de disfunção autonômica deve ser considerada parte da avaliação sistemática. Sintomas como palpitações, sudorese, intolerância ortostática e cefaleia recorrente devem ser ativamente pesquisados.
Dispepsia funcional: ajuste nos critérios e fisiopatologia ampliada
A estrutura diagnóstica da dispepsia funcional foi preservada no Roma V, mantendo a subdivisão entre síndrome do desconforto pós-prandial (PDS) e síndrome da dor epigástrica (EPS). O ajuste mais relevante na versão pediátrica é a elevação do limiar de frequência para PDS: de uma vez por semana (Roma IV) para pelo menos três vezes por semana, alinhando os critérios pediátricos ao padrão adulto.
O Roma V também define explicitamente o que constitui um episódio pós-prandial: sintomas desencadeados ou agravados pela refeição devem surgir dentro de até duas horas da ingestão. Essa janela temporal reduz a ambiguidade diagnóstica entre PDS e EPS.
Do ponto de vista fisiopatológico, o documento enfatiza que a dispepsia funcional é heterogênea, sustentada por mecanismos que podem incluir acomodação gástrica reduzida, hipersensibilidade à distensão, esvaziamento gástrico alterado e atividade aumentada de mastócitos e eosinófilos na mucosa duodenal. Esse último mecanismo é clinicamente relevante porque demonstra que uma endoscopia macroscopicamente normal não exclui alterações imunológicas ativas. Cinquenta por cento dos pacientes pediátricos com dispepsia funcional apresentam esvaziamento gástrico alterado, e 50% mostram alterações na eletrogastrografia, o que reforça a necessidade de investigação fisiológica nos casos refratários.
Síndrome de ruminação: critérios unificados por faixa etária
A síndrome de ruminação, caracterizada por episódios repetitivos e aparentemente sem esforço de regurgitação de conteúdo gástrico (remastigado, reengolido ou expelido), teve seus critérios unificados para todas as faixas etárias no Roma V. Versões anteriores distinguiam critérios separados para lactentes, crianças e adolescentes. A versão atual adota uma estrutura diagnóstica comum, reconhecendo que as características clínicas nucleares são compartilhadas entre os grupos, mesmo que a fisiopatologia e as comorbidades variem com a idade.
Em crianças menores, o componente comportamental e de regulação emocional tende a predominar. Em adolescentes, comorbidades psiquiátricas (ansiedade, depressão, transtornos de humor) estão presentes em até 70% dos casos. A presença de comorbidade psiquiátrica está associada tanto a piores desfechos quanto a tratamentos mais longos. O Roma V recomenda encaminhamento à saúde mental como parte rotineira do manejo nesses casos, não como alternativa ao tratamento gastroenterológico.
O tratamento de primeira linha continua sendo a respiração diafragmática, eficaz tanto em atendimento presencial quanto por telemedicina, com adaptações para crianças menores. Um dado que o Roma V destaca: aproximadamente 23% das crianças com síndrome de ruminação apresentam remissão espontânea após apenas a consulta inicial de psicoeducação, o que sugere que parte do peso clínico advém da ausência de um diagnóstico explicado.
Impacto na prática clínica
Testes fisiológicos integrados ao algoritmo diagnóstico
O Roma V eleva formalmente a pH-impedanciometria e a HRIM ao status de testes integrantes do algoritmo diagnóstico em vários distúrbios esofágicos, não apenas como opções complementares. Isso representa uma mudança de cultura clínica: a fenotipagem dos DGBIs esofágicos passa a exigir uma camada fisiológica que a endoscopia convencional não oferece.
Avaliação psicossocial como componente diagnóstico central
O Roma V integra a avaliação de fatores psicossociais ao raciocínio diagnóstico dos DGBIs, não como elemento complementar, mas como componente central. Ansiedade, hipervigilância visceral, estresse e histórico de trauma figuram no racional fisiopatológico de várias entidades. Do ponto de vista prático, isso significa que o encaminhamento à saúde mental não é um reconhecimento de que 'não há doença orgânica', mas uma resposta adequada à fisiopatologia documentada do eixo cérebro-intestino.
Manejo Multidimensional
O Roma V consolida a ideia de que os DGBIs não devem ser tratados apenas com controle isolado de sintomas gastrointestinais. O manejo passa a ser estruturado em múltiplas frentes, combinando intervenções nutricionais, estratégias comportamentais, suporte psicológico e terapias farmacológicas conforme o perfil clínico de cada paciente. Em vários distúrbios pediátricos, especialmente nos transtornos alimentares funcionais, na ruminação e na náusea crônica, o documento destaca o papel de abordagens como terapia cognitivo-comportamental, técnicas respiratórias, exposição gradual alimentar e neuromodulação. O Roma V também chama atenção para o risco de dietas excessivamente restritivas aumentarem ansiedade relacionada às refeições e perpetuarem padrões evitativos, reforçando a necessidade de acompanhamento nutricional individualizado e multidisciplinar.
Avaliação familiar nos transtornos de alimentação pediátricos
Nos FPFDs especificamente, o Roma V estrutura a avaliação do bem-estar familiar como parte do protocolo de manejo. Transtornos alimentares em crianças aumentam o estresse parental, reduzem a autoeficácia dos cuidadores e geram padrões de interação nas refeições que podem perpetuar o distúrbio. O documento propõe que essa avaliação seja multimodal, incorporando histórico clínico, relatórios escolares, gravações de refeições e avaliação neuropsicológica quando indicado.
Limitações e controvérsias
O Roma V avança em pontos relevantes, mas deixa questões em aberto que merecem reconhecimento:
Limitações da atualização > As subcategorias dos FPFDs são novas e ainda carecem de dados epidemiológicos robustos. As proporções relativas de cada subtipo na população pediátrica geral são desconhecidas. > A integração de pH-impedanciometria e HRIM ao algoritmo diagnóstico pressupõe acesso a tecnologia não disponível na maior parte dos serviços de saúde no Brasil e em países de renda média. > A proposta de eliminar o termo ARFID pode gerar problemas de comunicação interdisciplinar com serviços de saúde mental que seguem o DSM-5, onde o ARFID permanece vigente. > Vários critérios pediátricos foram extrapolados de dados obtidos em adultos. Estudos orientados para a população pediátrica ainda são necessários para validar as novas subcategorias. > O papel da microbiota intestinal como eixo fisiopatológico nos DGBIs, amplamente debatido na literatura recente, ainda não se traduz em critérios diagnósticos aplicáveis no Roma V. |
Considerações finais
O Roma V consolida uma mudança que vinha sendo construída na literatura há mais de uma década: a de que os distúrbios gastrointestinais antes rotulados como 'funcionais' são entidades com fisiopatologia própria, mecanismos identificáveis e abordagem terapêutica específica. A troca de nomenclatura para DGBIs reorganiza a forma como esses pacientes são avaliados, como os exames complementares são indicados e como o tratamento é estruturado.
Para o clínico, o Roma V oferece critérios mais precisos, uma taxonomia mais coerente com a fisiopatologia atual e um roteiro diagnóstico que integra sintomas e dados fisiológicos de forma mais sistemática do que as versões anteriores. O documento original é de leitura recomendada, especialmente as seções de distúrbios esofágicos e de transtornos funcionais de alimentação pediátricos, onde as mudanças são maiores.
Referências
1. Rosen R, Borrelli O, Faure C, et al. Rome V Pediatric Upper Gastrointestinal Disorders of Gut-Brain Interaction. Gastroenterology. 2026;170:1347-1366.
2. Drossman DA, Hasler WL. Rome IV: Functional GI Disorders: Disorders of Gut-Brain Interaction. Gastroenterology. 2016;150(6):1257-1261.