
Imagine a seguinte cena: um médico do interior prescreve cálcio para uma gestante com base nas diretrizes do Ministério da Saúde publicadas em fevereiro de 2025 — completamente dentro do protocolo oficial. Meses depois, chega às suas mãos uma nota técnica da FEBRASGO dizendo que essa mesma recomendação, agora, não mais se sustenta. Dois posicionamentos oficiais apontando em direções opostas.
Essa não é uma situação hipotética, mas sim o estado atual da suplementação de cálcio para prevenção da pré-eclâmpsia no Brasil.
Este artigo busca explicar essa história — dos fundamentos que tornaram o cálcio uma aposta razoável, passando pela metanálise que redefiniu as certezas, até o impasse prático que médicos brasileiros enfrentam hoje.
1. Por que o cálcio entrou no pré-natal em primeiro lugar
A pré-eclâmpsia é uma das condições obstétricas mais perigosas que existem. Manifesta-se geralmente após a 20ª semana de gestação, combina hipertensão com lesão de órgão-alvo e, quando não controlada a tempo, pode evoluir para convulsões, insuficiência renal, insuficiência hepática e óbito materno e fetal. No Brasil, ela figura consistentemente entre as principais causas de mortalidade materna.
A hipótese de que o cálcio pudesse ser um escudo contra essa complicação surgiu de uma observação clínica simples: populações com ingestão habitualmente baixa de cálcio apresentavam taxas mais elevadas de pré-eclâmpsia. A lógica fisiopatológica faz sentido — o mineral participa da regulação do tônus vascular e da sinalização celular endotelial, dois mecanismos diretamente envolvidos na gênese da hipertensão gestacional.
Em 2011 a Organização Mundial da Saúde (OMS) formalizou a recomendação: suplementação de cálcio para gestantes com ingestão baixa do nutriente ou risco elevado de pré-eclâmpsia. O Brasil, onde levantamentos populacionais apontavam que mais de 96% das mulheres adultas consomem menos cálcio do que o recomendado, tinha, na prática, todas as gestantes enquadradas nessa indicação.
A síntese mais influente desse período foi a metanálise de Hofmeyr e colaboradores publicada na Cochrane em 2018. Ela reuniu dezenas de estudos e concluiu que a suplementação com pelo menos 1 g/dia de cálcio elementar reduzia o risco de pré-eclâmpsia de forma clinicamente significativa — especialmente nas mulheres com ingestão basal mais baixa. Havia também sinais de redução de parto pré-termo e de desfechos maternos graves.
2. Hofmeyr 2018 versus Cluver 2025: onde as análises divergem
Em 2025, uma nova versão da mesma revisão sistemática foi publicada na Cochrane. Desta vez, o grupo de autores — liderado por Cluver e colaboradores — atualizou a base de dados com ensaios mais recentes, incluindo estudos multicêntricos de maior porte. Mas a mudança mais decisiva não foi quantitativa, e sim metodológica.
Os revisores realizaram análises de sensibilidade que excluíram estudos classificados como de alto risco de viés — aqueles com amostras muito pequenas, sem registro prévio em plataforma oficial de ensaios clínicos, ou com outras fragilidades metodológicas sérias. Quando esses estudos foram retirados do cômputo, o efeito protetor do cálcio praticamente desapareceu. A evidência que parecia sólida revelou-se, em grande parte, sustentada por estudos que não passariam pelos filtros de qualidade contemporâneos.
Aspecto analisado | Hofmeyr et al. (2018) | Cluver et al. (2025) |
Base de estudos | Ampla, inclui estudos clínicos randomizados de menor porte e estudos com designs variados | Atualizada, com ênfase em ensaios multicêntricos recentes |
Análise de sensibilidade | Discussão de vieses, mas sem exclusão formal de estudos não confiáveis | Exclusão de estudos com risco de viés sério; resultado global alterado |
Efeito sobre pré-eclâmpsia | Redução significativa, especialmente com ≥1 g/dia e baixa ingesta basal | Efeito não confirmado após exclusão de estudos de baixa confiança |
Segurança | Possível aumento raro de síndrome HELLP, sem anular benefícios | Incerteza sobre segurança quando benefício é questionado |
Conclusão principal | Suporta suplementação em populações com baixa ingesta de cálcio | Não suporta suplementação rotineira para prevenção da pré-eclâmpsia |
É importante compreender que essa diferença não se trata de resultados de uma pesquisa nova que contradiz estudos anteriores — trata-se de uma reanálise mais criteriosa do mesmo corpo de evidências. Hofmeyr et al. enxergaram um efeito real porque incluíram estudos que, sob escrutínio mais rigoroso, não deveriam ter sido incluídos. Cluver et al. foram mais seletivos e, ao fazer isso, descobriram que parte substancial do sinal de benefício era ruído metodológico.
3. A divergência entre política pública e evidência científica
O que torna esse episódio particularmente interessante é o momento em que ocorreu. Em fevereiro de 2025, o Ministério da Saúde havia publicado a Nota Técnica Conjunta nº 251/2024, formalizando a suplementação universal de cálcio para todas as gestantes atendidas pelo SUS a partir da 12ª semana de gestação. A medida foi apresentada como avanço na redução da mortalidade materna e tinha toda a legitimidade de uma política embasada nas recomendações vigentes da OMS e nos protocolos históricos do pré-natal.
O problema é que a atualização da Cochrane estava em processo de publicação exatamente nesse período. E quando os dados foram consolidados, a Rede Brasileira de Estudos sobre Hipertensão na Gravidez (RBEHG), em parceria com a Comissão Nacional de Hipertensão na Gestação da FEBRASGO, revisou sua posição: à luz das novas evidências, o cálcio não deveria mais ser recomendado com o objetivo específico de prevenir a pré-eclâmpsia.
📌 PONTO CLÍNICO ESSENCIAL A FEBRASGO e a RBEHG deixaram claro que a prescrição de cálcio na gestação permanece válida para outras indicações além da prevenção da pré-eclâmpsia — como reposição em casos de deficiência comprovada ou risco aumentado de osteoporose. A mudança diz respeito especificamente ao uso como estratégia preventiva para pré-eclâmpsia de rotina em todas as gestantes. |
4. Impacto na prática clínica: o que fazer agora?
A primeira coisa que o médico precisa entender é que não existe, neste momento, uma resposta única e definitiva.
No consultório e na UBS: a prescrição de cálcio para prevenção de pré-eclâmpsia deixou de ter respaldo das principais sociedades obstétricas brasileiras. Médicos e enfermeiros que acompanham o pré-natal devem estar cientes de que a indicação profilática rotineira está sob questionamento, e que a conversa com a gestante precisa refletir essa nuance.
Para gestantes já em uso do suplemento: interrupção abrupta não é necessária nem recomendada. A abordagem mais prudente é contextualizar na próxima consulta, explicar o movimento das evidências e, se a gestante não apresentar outra indicação para o uso, discutir em conjunto sobre a continuidade ou não da suplementação.
5. Críticas, controvérsias e o que ainda não sabemos
A metanálise de Cluver et al. não está imune a críticas. Parte dos especialistas questiona se a exclusão de estudos menores não foi excessivamente restritiva — afinal, excluir estudos com base em critérios de viés pode, em algumas situações, introduzir um viés diferente: o de favorecer apenas ensaios de grande porte, que por sua natureza tendem a ser realizados em populações de países de renda alta, onde a deficiência de cálcio é menos prevalente.
6. Considerações finais
A história do cálcio na gestação é um caso claro de como a evolução da medicina funciona. A Hofmeyr et al. de 2018 representava o melhor que a síntese de evidências podia oferecer naquele momento. A Cluver et al. de 2025 representa a mesma síntese, mas com ferramentas mais afinadas. Nessa história, vimos o progresso científico funcionando como deveria.
Há ainda novas metanálises em andamento, e entidades como a ISSHP (Sociedade Internacional para Estudos da Hipertensão na Gestação) e a própria OMS ainda não revisaram seus posicionamentos. É importante ressaltar que o silêncio delas não é um aval à prática atual, mas apenas um reflexo do fato de que o processo de revisão ainda está em curso.
Por ora, a postura mais honesta é informar, contextualizar e acompanhar. O cálcio pode ainda ser prescrito por outras indicações. A prevenção da pré-eclâmpsia, contudo, precisará aguardar que a ciência — e as políticas públicas — se reencontrem em um novo terreno comum.
Referências
- Cluver CA, et al. Calcium supplementation during pregnancy for preventing hypertensive disorders and related complications. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2025. DOI: 10.1002/14651858.CD001059.pub6
- Hofmeyr GJ, et al. Calcium supplementation during pregnancy for preventing hypertensive disorders and related problems. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2018. DOI: 10.1002/14651858.CD001059.pub5
- RBEHG / CNE-HGFEBRASGO. Reposição de cálcio em gestantes para a prevenção de pré-eclâmpsia. Abril de 2026. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br/pt/noticias/item/2369-reposicao-de-calcio-em-gestantes-para-a-prevencao-de-pre-eclampsia
- Ministério da Saúde do Brasil. Em estratégia contra a pré-eclâmpsia, suplementação de cálcio passa a ser universal para gestantes. Publicada em fevereiro de 2025. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2025/fevereiro/em-estrategia-contra-a-pre-eclampsia-suplementacao-de-calcio-passa-a-ser-universal-para-gestantes