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AHA e ACC juntas pela primeira vez: o que muda no TEP com o guideline de 2026

A primeira diretriz conjunta das duas maiores organizações de cardiologia do mundo redefiniu como classificamos, estratificamos e tratamos o tromboembolismo pulmonar agudo.

A imagem apresenta um fundo azul escuro com um texto grande à esquerda dizendo “Novo Guideline TEP (AHA e ACC) Atualizações 2026”, sendo que a parte “Atualizações 2026” aparece em amarelo e com mais destaque visual. À direita, há uma ilustração em estilo cartoon de uma lâmpada amarela com rosto sorridente, olhos grandes com brilho em forma de estrela e óculos redondos. A lâmpada está vestida como um médico, usando jaleco branco e estetoscópio, e segura um frasco branco com a inscrição “DOAC”. A composição transmite de forma visual e amigável a ideia de novidades médicas relacionadas ao tromboembolismo pulmonar.

Uma emergência que mata em silêncio

Existe algo perturbador no tromboembolismo pulmonar: ele pode matar um paciente completamente assintomático — ou se apresentar como uma parada cardiorrespiratória sem aviso prévio. 

Nos Estados Unidos, o TEP agudo atinge centenas de milhares por ano e figura entre as principais causas de morte cardiovascular no mundo. No Brasil, os dados são escassos, mas os serviços de emergência de qualquer hospital de médio porte conhecem bem essa realidade.

O que chama atenção, porém, é que durante décadas a medicina não tinha um consenso robusto e unificado sobre como classificar a gravidade dessa doença — quando internar, quando usar trombolíticos, quando anticoagular em casa. Cada sociedade médica tinha sua linguagem, sua lógica, seus critérios.

Em 19 de fevereiro de 2026, publicado simultaneamente na Circulation e no JACC, chegou o primeiro guideline conjunto AHA/ACC dedicado exclusivamente ao tromboembolismo pulmonar agudo. Nunca antes as duas organizações tinham feito isso.

Como classificávamos o TEP antes — e por que isso importa

Para entender o salto que a nova diretriz representa, é preciso olhar para trás.

Em 2011, a American Heart Association (AHA) publicou um documento científico que propunha três grandes categorias: baixo risco, submaciço e maciço. O critério central era hemodinâmico — o paciente estava hipotenso ou não? Era uma divisão funcional, prática para o pronto-socorro, mas que deixava de fora nuances importantes. O que fazer com o paciente normotenso, mas com biomarcadores elevados e ventrículo direito sobrecarregado? Ele era 'submaciço' — mas essa categoria abrigava um espectro enorme de gravidades distintas.

Em 2019, a European Society of Cardiology (ESC) sofisticou o modelo com quatro categorias — baixo risco, intermediário-baixo, intermediário-alto e alto risco — cruzando escores clínicos com dados de imagem e biomarcadores. Foi um avanço real, mas a classificação ainda tinha dificuldade em reconhecer pacientes com comprometimento predominantemente respiratório (sem instabilidade hemodinâmica clássica) e não era granular o suficiente para as situações mais críticas.

Enquanto isso, do lado americano, nenhuma diretriz conjunta de TEP havia saído da AHA e do American College of Cardiology (ACC) juntas. Em mais de quatro décadas de colaboração entre as duas organizações, o TEP agudo havia ficado órfão de um documento de referência compartilhado.

Categorias A a E: a lógica por trás da mudança

O que o sistema A-E faz de diferente não é apenas renomear categorias — ele muda a “filosofia” da estratificação de risco. Nos modelos anteriores, a pergunta central era: o paciente está hemodinamicamente instável? Era uma lógica binária. A partir de agora, a pergunta se torna: qual é o impacto fisiopatológico real dessa embolia neste paciente específico?

Para responder isso, o novo sistema integra cinco dimensões ao mesmo tempo: quadro clínico, hemodinâmica, função do ventrículo direito por imagem, biomarcadores cardíacos e status respiratório. Uma adição elegante é o modificador R (respiratório), que pode ser acrescentado a qualquer categoria quando o comprometimento respiratório for proeminente — reconhecendo que nem todo TEP grave se manifesta primeiro na hemodinâmica.

Tabela 1. Categorias clínicas AHA/ACC para TEP agudo (adaptado do guideline 2026). VD = ventrículo direito; PERT = Pulmonary Embolism Response Team.

Categoria

Perfil Clínico

Hemodinâmica

Biomarcadores / VD

Conduta

A

TEP assintomático/incidental

Estável

Não avaliados rotineiramente

Alta da emergência sem internação

B

TEP sintomático com baixo escore de gravidade clínica (por exemplo, classe I–II do PESI, sPESI = 0, Hestia = 0)

Estável

Normais 

Alta precoce com anticoagulação oral

C

TEP sintomático com escore de gravidade clínica elevado (por exemplo, classe III–V do PESI, sPESI ≥ 1, Hestia ≥ 1)

Estável

Variável conforme subcategoria (comumente elevados e/ou disfunção de VD)

Internação obrigatória; considerar PERT

D

Pré-falência cardiopulmonar (choque normotensivo ou necessidade iminente de suporte ventilatório)

Comprometida (hipotensão transitória ou relativa)

Tipicamente alterados

UTI; terapias avançadas razoáveis para D1-D2

Acionar PERT

E

Falência cardiopulmonar (choque cardiogênico ou parada cardíaca)

Instável (hipotensão persistente ou colapso)

Gravemente alterados

UTI urgente; trombólise ou trombectomia razoáveis para E1

Acionar PERT

Modificador R

Comprometimento respiratório predominante

Pode ser estável ou comprometida

Variável

Abordagem individualizada

O que muda no seu dia a dia clínico

Três perguntas práticas, três respostas diretas.

1. Posso mandar o paciente com TEP para casa da emergência? Sim — desde que ele esteja na Categoria A ou B. Paciente assintomático com TEP incidental, sem comprometimento do ventrículo direito, sem biomarcadores alterados: anticoagulação oral e seguimento ambulatorial. O pré-requisito é que o paciente tenha acesso imediato à medicação e acompanhamento confiável dentro de uma semana.

2. Quando devo acionar terapias avançadas? A diretriz clarifica o mapa. Trombólise sistêmica e trombectomia mecânica têm recomendação mais forte para Categoria E1 (choque cardiogênico persistente). Para Categorias D1 e D2, essas intervenções podem ser consideradas, mas a recomendação é mais cautelosa — a evidência ainda é limitada e o risco de sangramento não é negligenciável. Para Categorias A a C2, terapias avançadas simplesmente não têm indicação.

3. E nos pacientes intermediários — o que fazer? Monitorização ativa nos primeiros três dias. É nessa janela que ocorre a maioria dos episódios de deterioração hemodinâmica. Biomarcadores seriados, avaliação hemodinâmica frequente e lactato sérico. Para Categorias C a E, a ativação de uma equipe multidisciplinar (PERT) é recomendação Classe 1.

DOACs: a consolidação de uma tendência

Se havia alguma dúvida residual, o guideline a elimina: os anticoagulantes orais diretos — DOACs (direct oral anticoagulants), como apixabana, rivaroxabana, dabigatrana e edoxabana — são a primeira linha de anticoagulação oral no TEP agudo, na ausência de contraindicações.

A varfarina cede lugar definitivamente nesse contexto. As razões são conhecidas: os DOACs têm farmacocinética previsível, sem necessidade de monitorização do INR, menor risco de hemorragia intracraniana e menos interações medicamentosas relevantes. O ganho em qualidade de vida e adesão ao tratamento também é consistente nos dados disponíveis.

Para a fase de extensão do tratamento (além dos 3-6 meses iniciais), o guideline traz dados sólidos favorecendo doses reduzidas de apixabana (2,5 mg duas vezes ao dia) ou rivaroxabana (10 mg ao dia) — com eficácia comparável às doses plenas e perfil de sangramento superior.

O documento é criterioso nas exceções: síndrome antifosfolípide trombótica — especialmente na forma triplo-positiva ou com história de trombose arterial — ainda exige varfarina. Gravidez e amamentação têm suas próprias recomendações (heparinas de baixo peso molecular como primeira opção). Doença renal crônica grave exige atenção ao perfil de eliminação de cada DOAC. Insuficiência hepática avançada (Child-Pugh C) contraindica os DOACs.

PERT: quando o TEP vira trabalho de equipe

Pulmonary Embolism Response Teams (PERTs) não são exatamente uma novidade — o conceito já existia em centros de referência americanos e europeus há alguns anos. O que muda é o peso formal que o guideline lhes confere.

A recomendação é que pacientes com TEP de Categorias C a E tenham avaliação por uma PERT multidisciplinar — e isso vem com Classe de Recomendação 1. O time ideal inclui cardiologistas, pneumologistas, médicos de emergência, hematologistas, radiologistas intervencionistas, cirurgiões torácicos, farmacêuticos e enfermeiros especializados.

Na prática, o modelo funciona de forma semelhante ao 'código AVC' ou ao 'código IAMCSST': um sistema de ativação rápida que mobiliza especialistas para discutir o caso em poucos minutos, mesmo de forma remota. A evidência por trás das PERTs ainda tem limitações — grande parte vem de estudos observacionais. Mas os benefícios em redução do tempo para anticoagulação, menos uso de filtros de veia cava e menor tempo de UTI são consistentes nos registros disponíveis.

Seguimento após a alta: o que a diretriz padroniza

O TEP não termina na alta hospitalar. Essa é uma das mensagens mais relevantes do documento.

O protocolo de seguimento recomendado prevê contato ou avaliação clínica na primeira semana após a alta — para verificar adesão à anticoagulação, identificar complicações de sangramento e reforçar a educação do paciente. Em torno de três meses, uma consulta presencial dedicada deve discutir a duração da anticoagulação, investigar trombofilia quando indicado e rastrear sintomas persistentes.

Um ponto que a medicina frequentemente subestima também é discutido: a hipertensão pulmonar tromboembólica crônica (HPTEC) e, de forma mais ampla, a doença tromboembólica crônica (CTEPD). 

Até metade dos sobreviventes de TEP agudo relatam dispneia ou limitação funcional meses ou anos depois. A HPTEC complica cerca de 2% a 4% dos casos e, quando não diagnosticada, evolui silenciosamente para cor pulmonale. O guideline recomenda perguntar ativamente sobre sintomas cardiopulmonares em toda consulta de acompanhamento pelo menos durante um ano após o evento. 

Críticas e limitações do documento

A primeira crítica diz respeito à base de evidências: o novo sistema de classificação A-E ainda carece de validação prospectiva robusta em populações diversas. Foi construído a partir de uma síntese cuidadosa da literatura existente, mas os ensaios clínicos futuros é que dirão se ele realmente prediz desfechos melhor que os sistemas anteriores.

A segunda é sobre aplicabilidade em contextos de recursos limitados. As recomendações pressupõem acesso imediato a ecocardiografia, angiotomografia pulmonar, dosagem de troponina e BNP, além de especialistas para ativação de PERT. Em muitos hospitais brasileiros — e em boa parte do mundo —, essa infraestrutura simplesmente não existe. A adaptação local das recomendações é inevitável e necessária.

A terceira crítica toca em algo mais sutil: a tensão entre trombólise sistêmica e trombectomia mecânica nas categorias de alto risco. O guideline posiciona ambas como opções razoáveis para Categoria E1, mas a ausência de ensaios clínicos randomizados comparando diretamente as duas estratégias nesse cenário específico deixa a decisão dependente de experiência local e julgamento clínico, além da infraestrutura disponível.

Considerações finais

O guideline AHA/ACC 2026 tem consequências reais sobre como pensamos, como comunicamos e como agimos diante de um paciente com suspeita ou diagnóstico de TEP.

A transição da tríade baixo risco/submaciço/maciço para um sistema de cinco categorias com subcategorias e modificadores é, antes de tudo, uma mudança epistemológica: abandona a lógica binária 'estável ou instável' em favor de uma lógica gradiente, que respeita a heterogeneidade clínica do TEP. Além disso, a trombólise deixa de ser utilizada de forma ampliada e passa a ser reservada essencialmente aos casos de alto risco com instabilidade hemodinâmica; a anticoagulação migra definitivamente do eixo heparina–varfarina para os anticoagulantes orais diretos (DOACs) como primeira linha; e, por fim, o local de tratamento se torna mais individualizado, com validação do manejo ambulatorial seguro nos pacientes de baixo risco, reduzindo internações desnecessárias sem comprometer desfechos clínicos.

Para quem se prepara para provas de residência médica, o momento é de transição. As bancas examinadoras incorporarão progressivamente a nova nomenclatura e as novas recomendações — especialmente aquelas com maior robustez de evidência, como a preferência pelos DOACs, a possibilidade de alta precoce nas categorias de baixo risco e a formalização das PERTs.

Para quem já atua na emergência, a mensagem prática é imediata: o sistema A-E existe para tornar as decisões mais precisas, não mais complicadas. Aprenda sua lógica, e você terá um mapa mais confiável para navegar por um dos diagnósticos mais desafiadores da medicina cardiovascular.

O documento original está disponível gratuitamente

REFERÊNCIAS

Creager MA, Barnes GD, Giri J, et al. 2026 AHA/ACC/ACCP/ACEP/CHEST/SCAI/SHM/SIR/SVM/SVN Guideline for the Evaluation and Management of Acute Pulmonary Embolism in Adults. Circulation. 2026;153:e977–e1051. doi: 10.1161/CIR.0000000000001415

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